GUIMARÃES, Arthur e ARANHA, Carla. Ela se acha! Cláudia, São Paulo: Abril p. 128, junho/2010.
ELA SE ACHA!
Está em cartaz uma geração de crianças com a autoestima lá em cima, inflada por pais que elogiam qualquer atitude e acreditam que ter fé no próprio taco nunca é demais, Nossos especialistas advertem: esse comportamento é prejudicial à saúde. E mostram o caminho para criar filhos autoconfiantes na medida certa. (ARTHUR GUIMARÃES E CARLA ARANHA )
Durante alguns anos a atriz paulistana Mônica*. 28 anos, acreditou (como tantas mães) que tinha dado à luz uma criança espetacular. Seu filho. Klaus*, hoje com 9 anos, fez tudo mais cedo e sempre se destacou na escola. Ele enchia a família de orgulho e sua inteligência nos emocionava, conta. Mas o conto de fadas parece ter ficado para trás. O garoto hoje tem dificuldades de relacionamento por se considerar me¬lhor que todo mundo, e seu rendimento na escola caiu. Ele acha que não precisa estudar e já começou a dar trabalho, diz Mônica. O que terá acontecido com o menino? A resposta pode estar no excesso de autoesti¬ma, segundo a psicanalista e educadora Rose Maria Oliveira Paim, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Alguns pais valorizam demais os filhos. Claro que eles ficam com o ego nas nuvens. o que traz conse¬quências ruins, como distúrbios sociais, diz. Os espe¬cialistas garantem que, como tudo na vida, amor-próprio em exagero pode fazer mal, sim. O segredo é encon¬trar um equilíbrio para que o pequeno se veja de modo realista. nem melhor nem pior do que é, afirma Rose.
Algumas pesquisas dão pistas do que seria o ideal quando se trata de construir a percepção que as crian¬ças têm de si mesmas. No ano 2000, a psicóloga Carol S. Dweck, professora da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, investigou o efeito dos elogios em estudantes americanos. No estudo, os alunos recebiam dois tipos de cumprimento quando terminavam um tes¬te. Um deles era nossa, você é bem esperto, mais foca¬do na inteligência individual, e o outro, puxa. você deve ter se dedicado muito para conseguir esse resultado, que estimulava o esforço. As crianças que participaram da pesquisa foram acompanhadas por anos. As que eram elogiadas por serem especiais viraram medrosas. Quando eram colocadas diante de desafios, escolhiam aqueles em que achavam que se sairiam melhor. evitan¬do os mais difíceis. Criaram receio de falhar e perder o status positivo dos velhos tempos, explica Telma Vi¬nha, professora da Faculdade de Educação da Unicamp e autora do livro O Educador e a Moralidade Infantil (ed. Mercado de Letras). As do outro grupo, incentivadas por seu empenho, encaravam bem experiências em que po¬diam não se destacar. Para elas o importante era tentar.
OS TIJOLOS DA IDENTIDADE
A psicóloga Carol comprovou que a identidade de uma criança é algo construído tijolo por tijolo - e está calcada no que ouve e percebe dos adultos. Para variar, tudo começa em casa. Existem mães que não admiram seus rebentos, por questões pessoais. e ten-dem a criar, sem se dar conta, pessoas com baixa autoestima. Mas o contrário também acontece, ana¬lisa a psicóloga e educadora Rose Maria. Aí, o perigo é estimular demais o amor-próprio dos pequenos ¬como fez a família de Mônica, que está longe de ser uma exceção. Para o psicólogo americano W Keith Campbell, da Universidade da Carolina do Norte, autor de Narcissism Epidemic (ain¬da sem tradução no Brasil), muitos pais vêm tratando as crianças co¬mo reis. Eles chamam os filhos de príncipes, deixam que façam escolhas importantes para a famí¬lia mesmo quando ainda são pequenos e não cansam de dizer quanto são especiais. Isso não acontecia tanto nas décadas anteriores, quando os valores principais eram obediência e cooperação, afirma. Trata-se de um fenômeno contemporâneo. O problema é que os desdobramentos podem ser ne¬fastos, estimulando o narcisismo, postura em que só o amor por si mesmo tem vez, e provocando o medo de se arriscar em coisas novas, nas quais a aprovação alheia não está garantida. Na visão do especialista, hoje também existe uma preocupação maior em pro¬porcionar às crianças ferramentas que possam ajudá¬-las a encontrar, quando forem adultas, um lugar ao sol em um mercado de trabalho cada vez mais com¬petitivo. Nesse cenário de fato é importante ter uma boa opinião sobre si mesmo. Mas uma opinião com pé no chão. Acreditar que se é ótimo em tudo o tempo todo, é uma fantasia completa, afirma Yves de La Taille, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Caso haja agrados ou elogios demais, a criança tende a estancar. Pensa que não precisa se esforçar. Olhar para si mesmo e conseguir reconhecer o que pode ser melhorado é algo fundamental para o crescimento pessoal, como lembra Rodrigo Blum, do Departamento de Psica¬nálise do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo.
O PAPEL DO MENINO DE RUA
Há maneiras de equilibrar a autoestima do pequeno - mesmo que ela já esteja nas alturas. A ideia não é simplesmente parar de elogiar. Você deve incentivar seu filho, mas com o objetivo de fazê-lo progredir, e não de elevar o ego dele, orienta Yves. Ele sugere, entre outras coisas, mostrar ao garoto que o fun¬damentai não é ser considerado o melhor numa competição, e sim participar e ultrapassar os próprios limites. Rose Maria tem recomenda¬ções valiosas. É interessante mostrar que os colegas, irmãos e primos também possuem qualidades. Apenas tome cuidado para não desmerecer seu filho, ensina. Assim sinaliza-se à criança que ela não é a rainha da cocada preta - sem fazê-Ia se sentir menos amada por isso. Vale a pena ainda enfatizar que todas as pessoas merecem ser respeitadas, independentemente da condição social. Aqui, cabe aos pais dar o exemplo. Quando um meni¬no de rua se aproximar de seu carro, por que não olhar para ele com um sorriso em vez de fazer cara feia ou ignorar a aproximação? Desse modo, a criança apren¬de que todos, inclusive os desvalidos, são dignos de atenção, por menor que ela seja. São atitudes capazes de fazer brotar nela não só um conceito mais equili¬brado de si mesma mas também posturas do bem que se leva para o resto da vida, acredita o psicólogo W. Keith Campbell. Encorajar os pequenos a tratar os outros com dignidade é importante para que tenham uma percepção realista de si mesmos. afirma ele.
VALORES INABALÁVEIS
Roy Baumeister, professor do departamento de Psico¬logia da Universidade Estadual da Flórida nos Esta¬dos Unidos, comprovou que uma autoimagem exage¬rada e o cuidado com o próximo não andam juntos. Em estudos realizados nos últimos anos. ele encontrou duas categorias de valores: de um lado, aqueles mais ligados à inteligência, beleza e riqueza: de outro. os vinculados a autorrespeito, honestidade e justiça. Quando se estimula demais o amor-próprio. se esque¬ce do resto. A criança pode, por exemplo. tirar sarro de uma pessoa gordinha, já que o respeito pelo outro é menos valioso do que o fato de ser popular e agradar aos colegas. O autorrespeito regula a autoestima, ex¬plica Telma Vinha. Segundo ela, muitas vezes os pró¬prios pais são os maiores responsáveis pelas distorções na autocrítica das crianças. Observamos isso nas pe¬quenas coisas. Na partida de futebol o filho ganha o jogo, mas todos veem que ele cometeu várias faltas. Nesse caso, é muito comum a família esquecer as in¬frações e apenas comemorar o resultado. sem refletir sobre a forma usada para obter a conquista.” Vencer nesses termos é algo que nem deveria ser aplaudido. Para Telma, é preciso deixar claro, desde cedo, que os fins não justificam os meios. Caso contrário, a criança não corre o risco de se tomar alguém que olha só para o próprio umbigo. A mãe ou o pai tem que conversar com o pequeno cada vez que ele passar por cima de alguém ou fizer algo errado, porque é assim que se aprende diz ela. Elogios são bem-vindos, sim, principalmente quando o garoto se revelou verdadeiro, ge¬neroso e confiável - mas jamais em altas doses ou em situações em que ele foi bem-sucedido por ter dado um jeitinho. Não se deve esquecer dos valores fun¬damentais: respeito, justiça e sinceridade. afirma.
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